sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

ALVARO VIEIRA PINTO






FUNDAMENTOS SOCIAIS DA CONSCIÊNCIA DO PESQUISADOR

ALVARO VIEIRA PINTO

UM dos progressos substanciais nas idéias atuais a respeito da pesquisa científica encontra-se no reconhecimento unânime de sua natureza social. De há muito se sabe que o pesquisador solitário, que trabalhava num improvisado laboratório, com o instrumental primitivo por ele mesmo construído, é uma figura histórica correspondente à fase pioneira na edificação das ciências naturais. A evolução do saber científico obriga-o hoje a ser um empreendimento coletivo, em que sem dúvida o pensamento individual continua sendo a fonte das idéias, das finalidades e dos projetos, bem como das interpretações dos resultados, porém essa atividade não se exerce mais no isolamento do laboratório ou do gabinete de estudo, e sim no meio de uma equipe de colaboradores, que operam em conjunto, segundo um plano que a todos liga em vista de um fim comum, embora havendo divisão, às vezes extremamente minuciosa, das funções de cada integrante do corpo de pesquisadores.

Há realmente uma situação nova, caracterizando a pesquisa atual. Importa-nos assinalar, entretanto, para conservar o fio do pensamento crítico, não devermos julgar que foi somente agora, por se haver tornado um trabalho de equipe, que a pesquisa científica adquiriu caráter social. Seria uma ingenuidade e uma infidelidade ao historicismo do pensar dialético. A pesquisa científica é e sempre foi social, porque possui esse atributo não por acidente, por circunstâncias de época, mas por essência, por natureza, e portanto já o manifestava, embora por aspectos diferentes dos atuais, mesmo quando se exercia em forma de trabalho ou de meditação solitária de um sábio, que se consagrava a indagar o segredo das propriedades dos corpos e a descobrir as leis que ligavam os fenômenos então conhecidos. Não é pelo fato de exigir agora um grupo de auxiliares e colaboradores, a distribuição de funções, a convergência de especialistas em diversos campos do saber para resolver qualquer problema definido,. que a pesquisa se veio a tomar social. Isto corresponde ao lado acidental, contemporâneo, de que se reveste atualmente a sua sociabilidade intrínseca, que sempre existiu, e se define não pela organização ou institucionalização do trabalho efetivo, mas pela fundamentação e motivações que a determinam.
A pesquisa é social porque o pesquisador, isolado ou em grupo, a empreende em razão de uma exigência; sem dúvida sentida subjetivamente, mas de origem e justificação objetivas, ou seja procedente de uma necessidade social. Deve distinguir-se entre o lado subjetivo, aquele que aparece à consciência do pesquisador com o caráter de motivação imediata, e o lado objetivo, que, embora quase sempre não sendo claramente apreendido, estabelece de fato a razão última que explica a dedicação do sábio ao trabalho, à especialidade a que se consagra, e mesmo o tipo de problema particular que lhe desperta a atenção. Não percebe de ordinário a insinuação, diríamos melhor, a imposição social, porque a sofre tão natural e insensivelmente que não chega a ter noção dela. A sociedade constitui o que se poderia, imitando a terminologia de certas filosofias idealistas, chamar de "sujeito transcendental" da pesquisa, na acepção de que envolve a pessoa do pesquisador e lhe propõe os temas do pensamento, que o estimulam a armar-se e partir para a aventura da investigação. Possivelmente o caráter permanentemente social da pesquisa só agora se tome evidente aos olhos de certos estudiosos em virtude da necessidade de organizar operações em escala tão ampla que não pode mais ser executadas por indivíduos isolados e sem colaboradores qualificados e igualmente especializados. O fundamento da pesquisa é necessariamente social por ser de base histórica. Em qualquer momento a exploração da realidade só se efetua com apoio nos conhecimentos verdadeiros existentes na época. A existência de tais conhecimentos, inclusive já compendiados em corpos de doutrina ou em ciências, com o desenvolvimento que a fase vivida no momento permite, sua conservação, o acesso a eles por parte do candidato a pesquisador, tudo isto são fatos sociais. A sociedade, enquanto sujeito histórico coletivo, perdurando ao longo do tempo, carrega em si os conhecimentos adquiridos em sucessivas épocas, vai constituindo-os em saber científico, racionalmente compendiados, e os transmite como herança cultural de uma geração a outra. O pesquisador de cada momento histórico, mesmo daqueles em que só era possível a ação individual, não faz mais do que incorporar-se a este movimento cultural, incorporando a si o conjunto das idéias que a sociedade do tempo lhe oferece.
A historicidade do saber tem por corolário a sociabilidade da pesquisa, no sentido em que o pesquisador deve à sociedade as possibilidades de tornar-se um descobridor de novos dados do saber. Mas deve-lhe isto não apenas porque conserva para ele o tesouro dos conhecimentos comprovados e sim também porque é ela a fonte das exigências, dos problemas objetivos que despertarão o interesse do estudioso e a que se dedicará. A sociedade funciona pois duplamente no papel de agente supra-individual da pesquisa científica: enquanto depositária do saber acumulado, que possibilita o estudo do assunto em dado momento; na qualidade de determinante do interesse na resolução de tal ou qual problema em uma situação definida. Este segundo conceito merece particular atenção. A pesquisa científica não constitui, segundo pensava Dewey, uma "situação", em virtude apenas do conjunto de dados e relações que configuram o problema em causa. Parte de uma "situação" em sentido muito mais amplo, desconhecido e inalcançável pelo modo de pensar pragmatista, sendo o oposto deste. A "situação" tem de entender-se aqui em sentido dialético, isto é, enquanto totalidade da realidade num momento histórico definido, envolvendo tanto um aspecto do mundo objetivo, que se revela origem de um obstáculo existencial, por isso conduzindo ao projeto humano de suprimi-lo ou saltá-lo, quanto a inclusão do próprio observador em tal mundo, pelas condições de caráter social que afetam a vida da comunidade, de que ele, como cientista, se sente chamado a ocupar-se. A sociologia do saber só encontra os verdadeiros alicerces, só escapa de cair nas insuficiências do pragmatismo, do subjetivismo ou do formalismo especulativo sob qualquer de suas variedades positivistas atuais, quando assenta em princípios dialéticos. Dois desses são fundamentais, e, diríamos, - traçam a linha de partida de todda reflexão progressista neste terreno: o da contradição original, definidora da realidade do homem, a que o opõe à natureza; e, em segundo lugar, o da interdependência entre o indivíduo e a comunidade. A importância deste último consiste em que explica o aspecto histórico do processo de acumulação do saber, e sua utilização a cada momento como base para a pesquisa científica possível na situação então presente.
Estes dois conceitos são de caráter principal, pois compõem o ângulo supremo de compreensão em que devemos abranger a teoria da sociologia. do saber. A respeito do primeiro aspecto em várias passagens anteriores tecemos considerações epistemológicas. Vale a pena acentuar agora a importância do segundo. Sabemos ser um traço existencial do ser humano o achar-se sempre em "situação". Com este conceito tem sido entendido o fato de só existir em certo lugar e em certo período do tempo. Mas, parece-nos não se reduzirem apenas a estas as coordenadas que lhe outorgam existencialmente uma "situação". Não se trata unicamente de dimensões de tempo e de espaço, mas de parâmetros históricos, isto é, a localização do homem no espaço e no tempo afeta-o principalmente pelo aspecto qualitativo. As qualidades de lugar e tempo que se manifestam mais sensivelmente pela noção de fase do desenvolvimento da comunidade nacional em que o homem existe, sintetizam-se no conceito de processo social, e encontram o traço distintivo na noção de historicidade. Dizer que o homem se define como um ser "em situação" significa dizer concretamente que é um ser "em situação social". Pertence a determinada comunidade nacional e dentro dela, a uma região particular, nela ocupa lugar definido na estrutura da sociedade, que o carrega de correlações concretas com os demais membros do grupo, de que resultam condicionamentos de conduta prática e de concepções ideológicas, das quais não pode deixar de tomar conhecimento. Esse lugar na comunidade, por outra parte é estabelecido igualmente em função do tempo histórico, pois o grupo a que pertence o indivíduo não forma um todo invariável, mas um processo, de modo que a mesma comunidade tem uma realidade em certo momento e outra em época diferente. O homem existe sempre em situação, mas esta é cambiante, o condicionamento entre o indivíduo e o ambiente varia constantemente em qualidade e intensidade. Faz-se mister acentuar o caráter de processo de que se reveste êsse condicionamento, e em particular a natureza da ação recíproca entre o indivíduo e o grupo, pois esta desempenha papel capital na correta teoria sociológica da pesquisa científica. O cientista é um trabalhador especializado, estando submetido às condições gerais que afetam o trabalho na sua comunidade. Nesse âmbito configura-se aquilo que será para êle a sua "situação". Como todo trabalhador, está em relação de reciprocidade com o grupo. Com efeito, de um lado pode ser apreciado enquanto elemento no qual o grupo atua, impondo-se a ele, funcionando por este aspecto como determinante do indivíduo; mas, por outro lado, em virtude do projeto da pesquisa científica e a conseqüente criação do saber terem de partir de uma consciência que só existe concretamente em condição individual, a ação do grupo se transmuta na reação livre partida da consciência pessoal, que recebe as influências da comunidade, não passiva mas ativa e criadoramente. Por este aspecto o indivíduo aparece como o fator determinante e o grupo o paciente. A situação compõe-se assim dessa contradição, desse jogo de pressões e influências opostas, a do indivíduo, que pode ser apreciado do ponto de vista da direção pelo meio social, porque nenhuma tarefa científica que concebesse teria cabimento nem racionalidade se não fosse recebida e sancionada pelo meio; e a do meio, que, inversamente, pode ser considerado influído pelo indivíduo, sobretudo pelo criador científico de alta competência que lhe oferece o projeto de ações transformadoras da realidade, que a consciência social, consubstanciada na elite que tem o comando dos interesses econômicos e políticos do grupo, julga meritória e oportuna. Uma sociologia do saber que não se funde na correlação recíproca entre o indivíduo e a coletividade, levando sempre em conta, no caso de sociedades como as nossas, o estado de divisão destas, será necessariamente formalista e ingênua. Terá de privilegiar um dos elementos opostos, o que conduz ao julgamento equivocado do papel de ambos. Somente a concepção dialética estabelece base sólida de compreensão, porque mostra a ação recíproca e a unidade desses termos opostos, e ademais interpreta tal correlação como processo histórico.

Há realmente uma situação nova, caracterizando a pesquisa atual. Importa-nos assinalar, entretanto, para conservar o fio do pensamento crítico, não devemos julgar que foi somente agora, por se haver tomado um trabalho de equipe, que a pesquisa científica adquiriu caráter social. Seria uma ingenuidade e uma infidelidade ao historicismo do pensar dialético. A pesquisa científica é e sempre foi social, porque possui esse atributo não por acidente, por circunstâncias de época, mas por essência, por natureza, e portanto já o manifestava, embora por aspectos diferentes dos atuais, mesmo quando se exercia em forma de trabalho ou de meditação solitária de um sábio, que se consagrava a indagar o segredo das propriedades dos corpos e a descobrir as leis que ligavam os fenômenos então conhecidos. Não é pelo fato de exigir agora um grupo de auxiliares e colaboradores, a distribuição de funções, a convergência de especialistas em diversos campos do saber para resolver qualquer problema definido,. que a pesquisa se veio a tomar social. Isto corresponde ao lado acidental, contemporâneo, de que se reveste atualmente a sua sociabilidade intrínseca, que sempre existiu, e se define não pela organização ou institucionalização do trabalho efetivo, mas pela fundamentação e motivações que a determinam.

A pesquisa é social porque o pesquisador, isolado ou em grupo, a empreende em razão de uma exigência; sem dúvida sentida subjetivamente, mas de origem e justificação objetivas, ou seja procedente de umà necessidade social. Deve distinguir-se entre o lado subjetivo, aquele que aparece à consciência do pesquisador com o caráter de motivação imediata, e o lado objetivo, que, embora quase sempre não sendo claramente apreendido, estabelece de fato a razão última que explica a dedicação do sábio ao trabalho, à especialidade a que se consagra, e mesmo o tipo de problema particular que lhe desperta a atenção. Não percebe de ordinário a insi. nuação, diríamos melhor, a imposição social, porque a sofre tão natural e insensivelmente que não chega a ter noção dela. A sociedade constitui o que se poderia, imitando a terminologia de certas filosofias idealistas, chamar de "sujeito transcendental" da pesquisa, na acepção de que envolve a pessoa do pesquisador e lhe propõe os temas do pensamento, que o estimulam a armar-se e partir para a aventura da investigação. Possivelmente o caráter permanentemente social da pesquisa só agora se tome evidente aos olhos de certos estudiosos em virtude da necessidade de organizar operações em escala tão ampla que não podem mais ser executadas por indivíduos isolados e sem colaboradores qualificados e igualmente especializados. O fundamento da pesquisa é necessariamente social por ser de base histórica. Em qualquer momento a exploração da realidade só se efetua com apoio nos conhecimentos verdadeiros existentes na época. A existência de tais conhecimentos, inclusive já compendiados em corpos de doutrina ou em ciências, com o desenvolvimento que a fase vivida no momento permite, sua conservação, o acesso a eles por parte do candidato a pesquisador, tudo isto são fatos sociais. A sociedade, enquanto sujeito histórico coletivo, perdurando ao longo do tempo, carrega em si os conhecimentos adquiridos em sucessivas épocas, vai constituindo-os em saber científico, racionalmente compendiados, e os transmite como herança cultural de uma geração a outra. O pesquisador de cada momento histórico, mesmo daqueles em que só era possível a ação individual, não faz mais do que incorporar-se a este movimento cultural, incorporando a si o conjunto das idéias que a sociedade do tempo lhe oferece.

A historicidade do saber tem por corolário a sociabilidade da pesquisa, no sentido em que o pesquisador deve à sociedade as possibilidades de tornar-se um descobridor de novos dados do saber. Mas deve-lhe isto não apenas porque conserva para ele o tesouro dos conhecimentos comprovados e sim também porque é ela a fonte das exigências, dos problemas objetivos que despertarão o interesse do estudioso e a que se dedicará. A sociedade funciona pois duplamente no papel de agente supra-individual da pesquisa científica: enquanto depositária do saber acumulado, que possibilita o estudo do assunto em dado momento; na qualidade de determinante do interesse na resolução de tal ou qual problema em uma situação definida. Este segundo conceito merece particular atenção. A pesquisa científica não constitui, segundo pensava Dewey, uma "situação", em virtude apenas do conjunto de dados e relações que configuram o problema em causa. Parte de uma "situação" em sentido muito mais amplo, desconhecido e inalcançável pelo modo de pensar pragmatista, sendo o oposto deste. A "situação" tem de entender-se aqui em sentido dialético, isto é, enquanto totalidade da realidade num momento histórico definido, envolvendo tanto um aspecto do mundo objetivo, que se revela origem de um obstáculo existencial, por isso conduzindo ao projeto humano de suprimi-lo ou saltá-lo, quanto a inclusão do próprio observador em tal mundo, pelas condições de caráter social que afetam a vida da comunidade, de que ele, como cientista, se sente (...) e sem colaboradores qualificados e igualmente especializados. O fundamento da pesquisa é necessariamente social por ser de base histórica. Em qualquer momento a exploração da realidade só se efetua com apoio nos conhecimentos verdadeiros existentes na época. A existência de tais conhecimentos, inclusive já compendiados em corpos de doutrina ou em ciências, com o desenvolvimento que a fase vivida no momento permite, sua conservação, o acesso a eles por parte do candidato a pesquisador, tudo isto são fatos sociais. A sociedade, enquanto sujeito histórico coletivo, perdurando ao longo do tempo, carrega em si os conhecimentos adquiridos em sucessivas épocas, vai constituindo-os em saber científico, racionalmente compendiados, e os transmite como herança cultural de uma geração a outra. O pesquisador de cada momento histórico, mesmo daqueles em que só era possível a ação individual, não faz mais do que incorporar-se a este movimento cultural, incorporando a si o conjunto das idéias que a sociedade do tempo lhe oferece.




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CONCEITO DE EDUCAÇÃO

Que é a educação?
Deixaremos de lado as numerosas definições eruditas, que não vamos
mencionar, nem podemos discutir e consideraremos a educação em seus
dois significados: restrito e amplo.
Em significado restrito, o da pedagogia clássica, convencional,
sistematizada, refere-se a educação às fases infantil e juvenil da vida do
ser humano. Não se deve, no entanto, reduzi-la a esses limites. Seria um
erro lógico, filosófico e sociológico.
Em sentido amplo (e autêntico) a educação diz respeito à existência
humana em toda a sua duração e em todos os seus aspectos. Desta maneira
deve-se justificar lógica e sociologicamente o problema da educação de
adultos. Daqui sai a verdadeira definição de educação.
A educação é o processo pelo qual a sociedade forma seus membros à sua
imagem e em função de seus interesses.
Por conseqüência, educação é formação (Bildung) do homem pela
sociedade, ou seja, o processo pelo qual a sociedade atua constantemente
sobre o desenvolvimento do ser humano no intento de integrá-lo no modo
de ser social vigente e de conduzi-lo a aceitar e buscar os fins coletivos.

Caráter histórico-antropológico da educação

Partindo da definição exposta, podemos explicitar os caracteres da
educação:
a) A educação é um processo, portanto é o decorrer de um fenômeno (a
formação do homem) no tempo, ou seja, é um fato histórico. Todavia,
é histórico em duplo sentido: primeiro, no sentido de que representa a
própria história individual de cada ser humano; segundo, no sentido de que
está vinculada à fase vivida pela comunidade em sua contínua evolução.
Sendo um processo, desde logo se vê que não pode ser racionalmente
interpretada com os instrumentos da lógica formal, mas somente com as
categorias da lógica dialética.
b) A educação é um fato existencial. Refere-se ao modo como (por si
mesmo e pelas ações exteriores que sofre) o homem se faz ser homem. A
educação configura o homem em toda sua realidade. Pode-se dizer (em

outra versão da definição) que é o processo pelo qual o homem adquire
sua essência (real, social, não metafísica). É o processo constitutivo do ser
humano.
c) A educação é um fato social. Refere-se à sociedade como um todo. É
determinada pelo interesse que move a comunidade a integrar todos os
seus membros â forma social vigente (relações econômicas, instituições,
usos, ciências, atividades, etc.). É o procedimento pelo qual a sociedade
se reproduz a si mesma ao longo de sua duração temporal. Contudo, neste
processo de auto-reprodução está contida, desde logo, uma contradição:
a sociedade desejaria fazer-se no tempo futuro o mais igual possível a si
mesma; porém, a dinâmica da educação atua em sentido oposto, uma vez
que engendra necessariamente o progresso social, isto é, a diferenciação
do futuro em relação ao presente. Daí deriva o duplo aspecto do fato social
da educação: incorporação dos indivíduos ao estado existente (a intenção
de perpetuidade, de conservação, de invariabilidade, inércia pedagógica,
estabilidade educacional) e progresso, isto é, necessidade de ruptura do
equilíbrio presente, de adiantamento, de criação do novo. Esta contradição
pertence à própria essência da educação dada sua natureza histórico-
antropológica. Por ser contraditória é que a educação é instrumental (no
sentido em que a consciência crítica emprega este qualificativo). Quando
se verifica a simultaneidade consciente de incorporação e progresso,
tem-se a educação em sua forma integrada, isto é, a plena realização da
natureza humana.
d) A educação é um fenômeno cultural. Não somente os conhecimentos,
experiências, usos, crenças, valores, etc. a transmitir ao indivíduo, mas
também os métodos utilizados pela totalidade social para exercer sua ação
educativa são parte do fundo cultural da comunidade e dependem do grau
de seu desenvolvimento. Em outras palavras, a educação é a transmissão
integrada da cultura em todos os seus aspectos, segundo os moldes e pelos
meios que a própria cultura existente possibilita. O método pedagógico
é função da cultura existente. O saber é o conjunto dos dados da cultura
que se têm tornado socialmente conscientes e que a sociedade é capaz
de expressar pela linguagem. Nas sociedades iletradas não existe saber
graficamente conservado pela escrita, contudo, há transmissão do saber
pela prática social, pela via oral e, portanto, há educação.
e) Nas sociedades altamente desenvolvidas, com divisões internas em

classes opostas, a educação não pode conectar na formação uniforme
de todos os seus membros, porque: por um lado, é excessivo o número
de dados a transmitir; e, por outro, não há interesse nem possibilidade
e formar indivíduos iguais, mas se busca manter a desigualdade social
presente. Por isso, em tais sociedades, a educação pelo saber letrado é
sempre privilégio de um grupo ou dá-se, no sentido que se segue:
— somente este grupo tem assegurado o direito (real, concreto) de saber
(p. ex., alfabetização);
— somente membros desse grupo se especializam na tarefa de educar;
— somente e se o grupo tem o direito e o poder de legislar sobre a
educação, ou seja, de definir aquilo em que deva consistir a educação
institucionalizada, escolarizada. É conseqüência, essa minoria unicamente
reconhecerá com educação a deste último tipo. Todo o restante do saber
não letrado, e as demais formas de cultura que a sociedade transmite a
seus outros membros, é considerado incultura e ausência de educação.
f) A educação se desenvolve sobre o fundamento do processo
econômico da sociedade. Porque é ele que:
— determina as possibilidades e as condições de cada fase cultural;
— determina a distribuição das probabilidades educacionais na
sociedade, em virtude do papel que atribui a cada indivíduo dentro da
comunidade;
— proporciona os meios materiais para a execução do trabalho
educacional, sua extensão e sua profundidade;
— dita os fins gerais da educação, que determina em uma dada
comunidade serão formados indivíduos de níveis culturais distintos, de
acordo com sua posição no trabalho comum (na sociedade fechada,
dividida) ou se todos devem ter as mesmas oportunidades e possibilidades
de aprender (sociedades democráticas).
g) A educação é uma atividade teleológica. A formação do indivíduo
sempre visa a um fim. Está sempre "dirigida para". No sentido geral
esse fim é a conversão do educando em membro útil da comunidade. No
sentido restrito, formar, escolar, é a preparação de diferentes tipos de
indivíduos para executar as tarefas específicas da vida comunitária (daí a
divisão da instrução em graus, em carreiras, etc.). O que determina os fins
da educação são os interesses do grupo que detêm o comando social.
h) A educação é uma modalidade de trabalho social. Para compreendê-la

é necessário utilizar as categorias histórico-antropológicas dialéticas, que
definem o conceito de "trabalho". A educação é parte do trabalho social
porque:
- trata de formar os membros da comunidade para o desempenho de uma
função de trabalho no âmbito da atividade total;
- o educador é um trabalhador (reconhecido como tal);
- no caso especial da educação de adultos, dirige-se a outro trabalhador, a
quem tenciona transmitir conhecimentos que lhe permitam elevar-se em
sua condição de trabalhador.
i) A educação é um fato de ordem consciente. É determinada pelo grau
alcançado pela consciência social e objetiva suscitar no educando a
consciência de si e do mundo. É a formação da autoconsciência social
ao longo do tempo em todos os indivíduos que compõem a comunidade.
Parte da inconsciência cultural (educação primitiva, iletrada) e atravessa
múltiplas etapas de consciência crescente de si e da realidade objetiva
(mediante o saber adquirido, a cultura, a ciência, etc.) até chegar à plena
autoconsciência. Esta será a etapa em que todos os indivíduos alcançam
igualmente o máximo de consciência crítica de si e de seu mundo
permitida pelo estado de adiantamento do processo da realidade (máxima
consciência historicamente possível).
j) A educação é um processo exponencial, isto é, multiplica-se por si
mesma com sua própria realização. Quanto mais educado, mais necessita
o homem educar-se e, portanto exige mais educação. Como esta não está
jamais acabada, uma vez adquirido o conhecimento existente (educação
transmissiva) ingressa-se na fase criadora do saber (educação inventiva).
k) A educação é por essência concreta. Pode ser concebida a priori,
mas o que a define é sua realização objetiva, concreta. Esta realização
depende das situações históricas objetivas, das forças sociais presentes,
de seu conflito, dos interesses em causa, da extensão das massas privadas
de conhecimento, etc. Por isso, toda discussão abstrata sobre educação
é inútil e prejudicial, trazendo em seu bojo sempre um estratagema da
consciência dominante para justificar-se e deixar de cumprir seus deveres
culturais para com o povo.
I) A educação é por natureza contraditória, pois implica simultaneamente
conservação (dos dados do saber adquirido) e criação, ou seja, crítica,
negação e substituição do saber existente. Somente desta maneira é
profícua, pois do contrário seria a repetição eterna do saber considerado
definitivo e a anulação de toda possibilidade de criação do novo e do
progresso da cultura.


in SETE LIÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO DE ADULTOS (consulta na Internet)

ENTREVISTA

Dermeval Saviani São Paulo, abril de 1982


Segue, pois, a transcrição da entrevista que se desenrolou de maneira informal, sem questões prévias ou roteiro preestabelecido. Não se pretendeu discutir as idéias do autor; o objetivo foi reconstituir, na medida do possível, a sua trajetória intelectual.
Dermeval Saviani - O senhor poderia falar um pouco sobre sua vida, sua formação intelectual?
Álvaro Vieira Pinto - Minha origem é de um rapaz de classe média pobre, que teve necessidade de trabalhar logo cedo. Fui aluno do colégio dos jesuítas, o Santo Inácio no Rio de Janeiro. Naquele tempo, os exames eram feitos no Pedro II, para passar de um ano para outro no colégio. Quando terminei os estudos no Colégio Santo Inácio fiquei um ano disponível, sem poder entrar na faculdade, pois era muito jovem. Tinha decidido estudar medicina. Minha família morou algum tempo em São Paulo onde fiquei um ano, mas sem estudar nada de ciências. Foi um ano importante, porque foi um ano de formação literária e filosófica. Muito moço, com 14 anos, foi quando vim para o Rio de Janeiro, fazer o concurso vestibular para a Faculdade Nacional de Medicina. Passei em penúltimo lugar na turma e depois fui ser um dos primeiros alunos, porque eu não tinha formação nenhuma preparatória para aquele concurso: em São Paulo estudei muito e fiz relações com alguns intelectuais que naquele tempo estavam saindo da agitação do período da Semana de Arte Moderna. Eu já os peguei quando eles se reuniam todas as semanas, todas as noites, todos os dias quase, no café do Largo do Ouvidor, se não me engano, em São Paulo. Segui a carreira médica com muita dificuldade, porque logo depois meu pai teve um fracasso econômico e fiquei sem apoio, tendo que trabalhar para sustentar a família. Perdi minha mãe nesse período e ficamos quatro irmãos. Ficamos sem apoio e sem condições de fazer alguma coisa. Comecei a dar aulas num colégio de freiras, aulas de filosofia, de física, curso primário. Apesar disso ia fazendo aos poucos os meus estudos de medicina muito mal, para terminar o 5º. e 6º. anos e me formar. Quando me formei, tentei fazer Clínica, justamente em São Paulo, em Aparecida, mas não tive sucesso nenhum e não havia a menor condição para isso. Meu consultório era num quarto de hotel. Voltei para o Rio e aqui, com apoio de um amigo que me apresentou ao Álvaro Osório de Almeida, que naquele tempo estava com grande fama, porque estava fazendo pesquisas sobre o câncer, e trabalhos submetendo pacientes a pressões atmosféricas elevadas, com câmaras especiais. Fiquei trabalhando nisso, mas os resultados foram nulos. Assim trabalhei 16 anos, mas já nesse tempo com a minha inclinação filosófica, eu estava dando aulas também na Faculdade de Filosofia, que tinha sido fundada no Distrito Federal naquele tempo, mas logo depois essa faculdade fechou e criou-se a Faculdade Nacional de Filosofia, para onde eu passei na qualidade de professor adjunto. Comecei a dar cursos sobre lógica matemática, mas um ano depois veio a guerra, houve a vaga na cadeira de História da Filosofia por causa de uma mudança de professores que saíram porque eram alemães e eu era o único assistente na cadeira de Filosofia, sendo então nomeado professor substituto em História da Filosofia.
Saviani — Mas o senhor não tinha feito curso de Filosofia...
Vieira Pinto - Não tinha feito nenhum curso de Filosofia, tinha apenas estudado muito, em livros todos eles de orientação tomista evidentemente, porque fiz o curso que havia no Colégio Santo Inácio, com a duração de um ano de Filosofia, coisa que era uma novidade naquela época. Depois de quatro anos na Faculdade Nacional de Filosofia, pude então ir à Europa onde fui estudar na Sorbonne, o tempo suficiente para ver e sentir o ambiente filosófico de Paris.
Saviani — Isso foi em que época?
Vieira Pinto     Isso foi em 1949.
Saviani — O senhor ficou quantos anos na França?
Vieira Pinto — Na França fiquei quase um ano estudando; aí eu já tinha em mente o tema da minha tese, para defesa da cátedra na Faculdade de Filosofia na volta. Foi a tese sobre a cosmologia de Platão. Dei duas conferências sobre essa tese lá em Paris que foi discutida, muito comentada. Recolhi material e com isso fiz o meu trabalho aqui no Brasil para apresentá-lo na Faculdade. Afinal, fui aprovado e nomeado para a Faculdade de Filosofia. Logo depois terminou o meu trabalho no laboratório de Biologia, porque o laboratório foi transformado em instituição privada, com o que não concordei. Fiquei então na Faculdade como professor, mas aí não mais de Lógica e sim de História da Filosofia, onde permaneci vários anos.
Saviani - O seu estudo na Europa foi só na França ou em algum outro país mais?
Vieira Pinto Não. Visitei outros países: Itália, Espanha, Portugal, mas estudo só na França.
Saviani — E os seus conhecimentos de línguas?
Vieira Pinto - Bom, isso aí foi um pouco inclinação natural que eu tive sempre pelas línguas e fui aprendendo com a leitura, não tive professor particular, fui aprendendo quase que sozinho, decorando palavras e aprendendo textos, exceto o grego que aprendi com um rapaz ex-seminarista que sabia muito bem o grego e que me deu aulas, uma vez por semana, durante 2 anos.
Saviani - No Colégio Santo Inácio o senhor não estudava línguas?
Vieira Pinto - Só inglês e francês e foi mesmo a única base que tive, porque eu estudava seriamente e a prova está que só com aquele estudo pude me preparar para o trabalho de leitura e conversação em inglês e francês. O alemão foi por acaso. Estudei sozinho lendo gramáticas e livros de textos. O russo, eu tive por professor um começo de ensino com um velho oficial de marinha, refugiado, que me dava aulas gratuitamente e depois sozinho com dicionários e textos fui aos poucos me desenvolvendo.
Saviani — Mais uma coisa sobre as línguas. E o latim o senhor estudou no Colégio Santo Inácio?
Vieira Pinto — Sim, o latim estudei no Colégio Santo Inácio. Era um bom estudo.
Saviani — O senhor então domina o latim, o grego, o francês, o inglês, o alemão, o russo, o espanhol e o italiano?
Vieira Pinto — Sim. Tenho conhecimentos suficientes desses idiomas. Mais tarde aprendi um pouco de sérvio-croata, quando estive no exílio na Iugoslávia, mas isso foi uma coisa efêmera, pois sabia que não precisava mais daquele estudo. Estudei para ler o jornal daquele país para saber as, notícias da nossa terra.
Saviani — O senhor fez curso de Matemática?
Vieira Pinto - Sim. Fiz o curso de matemática superior, porque tinha um amigo, que depois foi meu colega de faculdade, hoje falecido, que me incentivou para fazer o curso de matemática. Era professor de mecânica superior. Fiz o curso na Universidade do Distrito Federal, que então existia. Mas o curso tinha dois alunos só, eu e um repetente. No meio do ano encerrou-se o curso, pois a escola fechou. As aulas eram dadas em um café. Mas com professores da melhor qualidade, homens de grande valor, 2 ou 3 só. Fiquei num dilema, pois precisava da matemática para entender o problema do raio-X. Como eu usava muito o raio-X no tratamento de doentes e de animais, eu precisava conhecer bem a física corpuscular e daí a necessidade que tive de me fazer competente também nessas questões.
Saviani - E a Física, o senhor chegou a fazer algum curso regular dentro da própria Medicina?
Vieira Pinto - Dentro da Medicina não. O curso de Física foi feito juntamente com o curso de Matemática.
Saviani — Então o senhor estudou Matemática e Física na época em que o senhor trabalhava no laboratório?
Vieira Pinto — Sim, no laboratório de Biologia.
Saviani — O laboratório pertencia ao hospital?
Vieira Pinto — Não, não pertencia ao hospital, apenas funcionava lá.
Saviani — O senhor era assistente no laboratório e também médico no hospital?
Vieira Pinto - O laboratório também era um hospital, porque tínhamos uma parte de pesquisa e outra de enfermaria.
Saviani - Paramos quando o senhor, voltando da Europa, assumiu a cadeira de História da Filosofia.
Vieira Pinto — Eu já era professor adjunto na Faculdade quando saí com uma licença especial para ir à Europa estudar. Fui, fiquei um tempo, voltei e reassumi a cadeira de História da Filosofia.
Saviani — Isto já era 1951?
Vieira Pinto — Sim, pois foi em 1951 que fiz o concurso e fui aprovado e nomeado professor catedrático.
Saviani — Como professor de História da Filosofia qual era a orientação filosófica que o senhor desenvolvia nos cursos?
Vieira Pinto — Era uma orientação exclusivamente pragmática, quer dizer, eu dava o curso seguindo os manuais da filosofia comum, idealista, mas sempre num nível superior e elevado, desenvolvia cronologicamente o pensamento. Porque eram 3 anos de filosofia grega, medieval, moderna e contemporânea. Isso tinha que ser dado em condições precárias, eu não tinha assistente algum. Mais tarde um ex-aluno tornou-se meu assistente, José Américo Pessanha, que dividiu comigo um pouco as atividades. Depois entra outro período, que é o do aparecimento do ISEB, e o convite casual que recebi de Roland Corbisier, para ser professor de Filosofia no ISEB. Isto em 1955. Com a entrada para o ISEB fui mudando aos poucos de orientação, fui tomando uma orientação mais objetivista, menos idealista e deixando de lado toda aquela forma clássica de ensinar História da Filosofia, que era puramente repetir o que o outro disse. Passei a fazer uma exposição sobre o autor e depois a crítica, o que me dava oportunidade de alargar mais o meu campo de pensamento, embora sem jamais ter chegado a impor a ninguém qualquer idéia extremista, ou qualquer idéia que julgava tal, que fosse considerada indevida num currículo de Filosofia. Na Faculdade de Filosofia jamais saí da linha puramente ortodoxa do ensino da Filosofia; o que fazia era seguir os autores, naturalmente que se o autor dissesse alguma coisa com a qual eu não concordava tinha que dizer o mesmo, porque a minha obrigação era ensinar, não o que eu pensava, mas o que os outros pensavam. Então eu tinha que repetir, resumir, repetir e depois fazer alguma crítica, mas muito pouco elaborada, porque senão eu perderia muito tempo na crítica e acabava não podendo adiantar a matéria.
Saviani — O senhor assumiu a perspectiva existencialista?
Vieira Pinto - Realmente, nessa época, como estava numa transição rápida, eu assumi muitas das posições existencialistas que não conhecia até então, e assim tive oportunidade de sentir o que havia de verdade nelas, não apenas no sistema que apresentavam, mas nos conceitos que se podiam aproveitar e procurava formular por mim novas maneiras de expor certas idéias de ordem humanista, de ordem historicista e nacionalista; e acabou sendo o oposto do próprio existencialismo, mas que tinha tirado do existencialismo, no sentido de que via a realidade do homem passando por aquela situação e chegando a outras conclusões. Depois, quando fecharam o ISEB, fui para o exílio.
Saviani - Sobre o ISEB, o senhor chegou a tomar conhecimento de alguns estudos posteriores a respeito do ISEB quando estava no exílio?
Vieira Pinto - Não, não cheguei.
Saviani -  Nem do Nelson Werneck Sodré?
Vieira Pinto — Não.
Saviani — E o exílio na Iugoslávia?
Vieira Pinto — Fui para a Iugoslávia e lá fiquei um ano totalmente inativo, sem poder dar aula, pois conhecia muito mal a língua. Depois de um ano fui para o Chile, por sugestão de Paulo Freire. Ele conseguiu arranjar alguma coisa que eu pudesse fazer e de fato recebi convite para fazer conferências, organizadas por professores do Ministério da Educação juntamente com o Paulo Freire.
Saviani - Esse curso de conferências que o senhor preparou sobre educação em 1966, o senhor se lembra dos itens?
Vieira Pinto - Educação, origem, base, finalidade, significado, técnicas, recursos, meios, como a realidade é modificada pela educação, todo problema geral da educação para adultos, para professores que educavam adultos, analfabetos, homens do campo geralmente. Dei conferências também para professores.  Eram cursos extras de verão.
 Saviani — O senhor ficou quanto tempo no Chile?
Vieira Pinto — Fiquei quase três anos no Chile, em fins de 68 voltei.
Saviani — O trabalho principal que o senhor fez no Chile, foram esses cursos?
Vieira Pinto — Esses cursos e ao mesmo tempo também tinha conseguido que um amigo brasileiro que trabalhava no CELADE (Centro Latino-Americano de Demografia) me apresentasse à Diretora que me deu trabalho de tradução de alguns pequenos panfletos. Depois a Diretora resolveu me contratar a fim de escrever um livro sobre Demografia para o CELADE. Eu não sabia o que fazer porque não sabia nada sobre Demografia, mas acabei estudando e escrevi um livro sobre o pensamento crítico em Demografia, que dois anos depois o CELADE mandou editar, mas que não teve entrada no Brasil. Está difundido na América toda, menos no Brasil.
Saviani — Foi editado só em espanhol?
Vieira Pinto — Sim, só em espanhol.
Saviani — E o senhor não tem exemplares desse livro?
Vieira Pinto — Tenho ainda dois exemplares. Você já viu o livro?
Saviani — Ainda não vi.
Vieira Pinto — Escrevi o livro em 8 meses. Considero um livro de grande importância para o meu pensamento; é um livro de grande significação.
Saviani - Gostaria de ler esse livro.
Vieira Pinto — Tenho apenas 2 exemplares. No CELADE talvez haja ainda outros, deve haver. No México foi muito lido, teve muita repercussão, foi muito procurado. Quando acabei esse livro, no ano seguinte a Diretora do CELADE me deu outro contrato para fazer outro livro. Aí é que eu escrevi o livro sobre Ciência e existência que não interessava ao CELADE publicar. Publiquei-o quando voltei ao Brasil, pela Editora Paz & Terra. E agora fico só com o que tenho guardado para publicar, mas é muita coisa! Tenho um livro sobre Tecnologia, que é muito grande, vários volumes para abranger a matéria toda. Tenho pronto um livro sobre a Filosofia Primeira; outro com o título A educação para um país oprimido. Tenho outro sobre os roteiros do curso de Educação de Adultos feito no Chile. Considerações éticas para um povo oprimido, livro sobre a ética que considero de grande valor no meu pensamento, porque não se dá à ética a importância que ela tem e centralizo um grande número de questões em torno de problemas éticos. Daí, desenvolvi um livro que trata exatamente da ética, mas da ética concreta, da ética real, de um País como o nosso, não é ética abstrata dos valores, das teorias, ou noções abstratas do dever, obediência, finalidade, nada disso. A ética real que funciona no mundo. A sociologia do povo subdesenvolvido é outro livro que tenho pronto. Cada livro tem 3 ou 4 volumes. A crítica da existência é outro livro que está guardado, um volume só, incompleto, pois não pude continuar escrevendo o que desejava porque estava cansado.
Saviani — Esse foi o último livro?
Vieira Pinto — É o último e talvez o primeiro, porque eu comecei escrevendo o texto quando estava na Iugoslávia. Nada de maior a dizer, nada de maior a esperar a não ser que não se percam, que vocês jovens professores cuidem de procurar um dia talvez publicar essas coisas se merecerem.
Saviani — Uma questão ainda que desperta alguma curiosidade é sobre aquele seu livro a respeito da Questão da Universidade.
Vieira Pinto — Sei, aquele livro foi uma conferência que fiz em Belo Horizonte e depois a diretoria da antiga UNE me pediu para publicar.
Como se vê, trata-se de um intelectual que se caracteriza, praticamente, pelo autodidatismo. Não nos apressemos, entretanto, a ver nesse fato um indicador de uma suposta pouca importância da escola na formação dos intelectuais. Lembremo-nos, conforme está registrado na entrevista, que V. Pinto estudou no Colégio Santo Inácio, dos jesuítas, que era, à época, um dos melhores do Rio de Janeiro, além de ter feito os exames no Colégio Pedro II. É, pois, pelo menos plausível a suposição de que o autodidatismo produziu bons frutos porque se desenvolveu sobre a base de uma sólida formação geral propiciada pela escolarização fundamental. De qualquer forma, não é possível ignorar a importância educacional de Álvaro Vieira Pinto. De um lado, porque é um testemunho do modo como eram formados os intelectuais brasileiros até início dos anos 50. De outro lado, porque exerceu importante influência na formação e no trabalho de outros intelectuais. Entretanto, é preciso registrar, além disso, que o professor Álvaro Vieira Pinto se preocupou explicitamente com a questão pedagógica. Essa preocupação fica evidenciada no depoimento obtido pela professora Betty Oliveira, em 13/03/82, cuja transcrição é reproduzida a seguir.
Betty — O senhor poderia resumir a sua visão sobre educação?
Vieira Pinto — O caminho que o professor escolheu para aprender foi ensinar. No ato do ensino ele se defronta com as verdadeiras dificuldades, obstáculos reais, concretos, que precisa superar. Nessa situação ele aprende. No meu livro sobre tecnologia trato da teoria da comunicação que contribui para a análise desse processo. Fiz a crítica da cibernética encontrando algumas noções que, se não são originais, precisam ser consideradas fundamentais. Por exemplo: é indispensável o caráter de encontro de consciências no ato da aprendizagem, porque a educação é uma transmissão de uma consciência a outra, de alguma coisa que um já possui e o outro ainda não. A teoria dialética do conhecimento é fundamentalmente cibernética, no sentido dialético da palavra. Não a cibernética empírica que é essa aí que se faz. Não se trata da entrega de um embrulho de uma pessoa para outra, mas de possibilitar uma modificação no modo como essa outra pessoa, que é o aluno, está capacitado para receber embrulhos. Na pedagogia, o princípio é a teoria da recepção do sabido, porque é preciso que se modifique a outra consciência. Isso tem muita importância porque permite estudar a educação do ponto de vista cibernético, não material, como se costuma fazer (quer dizer, só com dados estatísticos, com método e técnicas, etc.), mas avaliando o resultado pela transformação que a educação imprime à consciência do aluno. Se ela não fizer isso, de nada adianta seu esforço. Um dos graves erros na pedagogia alienada é esse. É avaliar o resultado da prática educacional pela devolução do embrulho, sem compreender que isso não é educação. A educação implica uma modificação de personalidade e é por isso que é difícil de se aprender, porque ela modifica a personalidade do educador ao mesmo tempo que vai modificando a do aluno. Desse modo, a educação é eminentemente ameaçadora. Ela consiste em abalar a segurança, a firmeza do professor, sua consciência professoral (que teme perder o estabelecido, que é o seu forte no plano da prática empírica) para se flexionar de acordo com as circunstâncias. A resistência do aluno ao aprendizado é um fator de modificação da consciência do educador, e não uma obstinação, uma incompetência. Mostrar e trazer a educação para o domínio da cibernética é uma imposição causada por duas ordens de fatores: 1) as massas educadas cada vez maiores; 2) e ao mesmo tempo a mecanização dos processos pedagógicos. Se o educador não se preparar, não terá condições para introduzir o verdadeiro fator, decisivo, no ato educativo, que é o papel da consciência. Fica prisioneiro do que a cibernética chama de hard-ware (todo o material, toda a parte mecânica, instrumental). É evidente que o professor não pode transmitir flexibilidade ao seu ensino se não a possui ele próprio na sua formação e na sua prática. Não escrevi nenhum livro de pedagogia, embora tenha muitas observações a fazer sobre ela.
Betty - Em outra ocasião o senhor falou sobre "pedagogia filosófica". Em que consiste?
Vieira Pinto — Para construção de uma pedagogia filosófica é preciso reunir dados ou elementos provenientes de quatro setores do saber: 1) da teoria do pensamento (dialética); 2) da organização dos atos do conhecimento em seus diversos pontos; 3) do estudo fisiológico ideal da psicologia; 4) da teoria do desenvolvimento humano, essencialmente histórico, marcado pelas diferentes culturas e civilizações. Esses aspectos que abordei fazem parte do material para um livro sobre pedagogia que pensei em escrever. A política, a técnica, a ciência, têm que ser consideradas na pedagogia, na teoria da pedagogia, para poder unificar e ao mesmo tempo inspirar a verdade pedagógica nos diversos campos em que ela se desdobra. O grande defeito que encontro nos educadores é principalmente o de procurar uma pedagogia pronta, quando não existe essa pedagogia pronta. E se existisse seria imprestável. A pedagogia nasce (aí teria que se dizer em grego paidos agogos, que é o ato, o verbo paida-gogen, isto é, como é preciso saber, como conduzir a criança à escola) no tempo da escravidão antiga, onde o escravo era o educador que tinha que ser educado com o próprio ato de tratar as crianças que lhe eram confiadas. Atualmente, de uma certa maneira, isso tem que ser feito, pelo educador, mas com uma consciência científica. É isso que falta compreender. A educação é um ato intransitive quer dizer, o educador não pode transformar a outrem que não esteja se transformando no próprio trabalho de ensinar. Por isso é que ele, ao ensinar, ele aprende.
Betty – O senhor poderia explicitar melhor a sua frase: "A resistência do aluno ao aprendizado é um fator de modificação da consciência do educador e não uma obstinação, uma incompetência"?
Vieira Pinto — O que quero dizer é que não há uma rigidez, não há um a priori em educação. É o caso de repetir com Leibniz, quando corrigiu Aristóteles, "exceto a própria educação". Este é o único a priori que existe. Isso serve de aforismo. (Isso corresponde a pequenos enunciados de verdade que o educador emite a propósito de um determinado ponto que serve para condensar o pensamento exposto, de maneira mais geral, na aula ou no livro. O aforismo é sempre uma verdade condensada. Ao mesmo tempo é simbólica. De modo que há o risco das interpretações errôneas. Isto é preciso evitar.)
A prática pedagógica é contraditória. É duplamente contraditória porque ela supõe que quem ensina sabe, quando não sabe e quem aprende não sabe, quando, na verdade, sabe. Essa é a contradição da pedagogia. Os erros que o educador comete só criticamente podem ser chamados de erros, e tem que se verificar até que ponto é ele o autor desses erros, É preciso entrar aí toda a teoria de Bacon sobre os eidola (tribus, specus, fori e teatri). Os ídolos são os erros que os homens fazem. Todas essas condições interferem no ato da educação. Têm que ser depuradas. Mas só a dialética consegue. É o que Bacon não podia fazer. Toda a minha idéia consiste em criar uma teoria da educação que não seja teórica, no sentido em que fica desfigurada como teoria, e sim corrigida pela prática da aula, pelo próprio ato de ensinar. E por outro lado que seja uma prática que não se confunda com um mero exercício, porque tem que valer como compreensão teórica. Dessa forma a teoria responde às dúvidas da prática. Sem essas dúvidas não haveria teoria. A teoria seria uma coisa sem maior significado, estéril. Essa relação entre teoria e prática é outro aforismo muito importante. O professor deve praticar a organização crítica de sua aula, em todos os aspectos. Por conseguinte, precisa buscar os fundamentos, os pressupostos para cada coisa que faz e também respostas para todas as objeções. É uma justificativa, um ato de buscar os fundamentos, continuamente, do seu fazer. Aí é que entra o papel da teoria da abstração. Um aluno traz consigo todos os problemas que só são dele (enquanto educando) porque ele está se formando. Quero mostrar aqui a identidade de educação e formação. Como ele está se formando, tem aqueles problemas que são dele; porque está se formando para ser ele mesmo e não outra pessoa. Logo, na fase de educação é que se dá a fase de formação. É um crescimento que tem dois aspectos: o aluno cresce como aluno porque aprende e com isso se forma. Quer dizer, o adulto educando é aquele que aprendeu o conjunto de conhecimentos que o formaram. É a noção de formação ligada à de educação.
Seria importante agora tratar do aforismo sobre o papel da escola que é uma coisa fundamental, muito complexa, para o qual a filosofia tem muito a contribuir. A escola é o meio que o aluno vai viver como aluno. É preciso aí estudar a relação entre os aspectos peculiares desse meio — a escola — com os demais. A escola representa a sociedade do aluno para o educador crítico, para o qual a sociedade representa a escola do educador. Quer dizer, a escola é um ambiente e, ao mesmo tempo, um processo. E como tal precisa ser entendida dinamicamente.
O ato de ensinar apresenta muitos obstáculos. Tudo vai depender de como se considera esses obstáculos. Podem ser de natureza material (falta de dinheiro, por exemplo) ou de outro tipo de natureza, como uma incompreensão de um colega para outro. Isso também são formas de obstáculos. Pode-se dizer que a pedagogia reproduz a sociologia; que não há problema pedagógico que não seja sociológico, e vice-versa. Toda transformação sociológica é fonte de modificações pedagógicas. Eu gostaria de tratar desse assunto unindo ao máximo a sociologia dialética com a pedagogia. É necessário levar também em conta a evolução do conteúdo da ciência.
A pedagogia não se torna científica por vontade do pesquisador ou do educador, mas quando as condições da prática social permitem uma determinada explicação do ensino tornar-se científica. A ciência tem sua evolução própria e a pedagogia tem que se adaptar a essa evolução, mas de uma perspectiva crítica que permita estabelecer o jogo de contradições.
Existe a ciência que também é uma forma de consciência e tem influência decisiva para construir a representação do objeto ou da atividade. É preciso também dar o máximo valor à noção de finalidade. Não há teoria da educação sem teoria da finalidade da educação.
É preciso que o êxito de uma determinada atitude pedagógica não se transforme em obstáculo ao prosseguimento do curso da própria educação. Os métodos bem sucedidos, como o do Paulo Freire, podem acabar se tornando um quisto, uma coisa que impede o prosseguimento do seu próprio desenvolvimento.
Penso que a afirmação de Vieira Pinto "não escrevi nenhum livro de pedagogia, embora tenha muitas observações a fazer sobre ela", decorre do fato de que as Sete lições sobre educação de adultos foram aulas-conferências que ele proferiu no Chile em 1966. Os textos que escreveu então, ele os redigiu como roteiros das aulas que ministrou. No seu entender, um livro exigiria maior desenvolvimento e aprofundamento. Entretanto, Betty e eu o convencemos a publicar os referidos roteiros na forma original. E isto não apenas pelas importantes contribuições que este pequeno livro contém, e que reputamos ser de grande utilidade para os educadores brasileiros de hoje, mas também como testemunho de um trabalho que vem se desenvolvendo já há muitos anos e que permanece vivo e atuante.
Hoje, quando diversos estudos já surgiram reconstituindo o momento histórico em que A. V. Pinto se configurou como um intelectual militante, pode-se fazer reparos a conceitos por ele emitidos e, mesmo, ao conjunto do seu pensamento filosófico. É impossível, porém, não reconhecer a sua importância e a envergadura intelectual de um trabalho desenvolvido em condições bastante adversas.
Após as considerações feitas, penso ter ficado claro o sentido da afirmação que fiz no início desta Introdução, quando disse que as vicissitudes da obra Ciência e existência espelham as vicissitudes pelas quais passou seu autor. Com efeito, assim como a referida obra correu o risco de cair no esquecimento, mas se impôs, tornando obrigatória a sua reedição, assim também seu autor, que parecia já ter-se retirado do cenário cultural brasileiro, resistiu e retorna agora através da presente obra.
A publicação deste livro é, pois, ao mesmo tempo uma contribuição à cultura brasileira e uma homenagem a um dos intelectuais que mais se empenhou na consolidação da referida cultura.
A presente Introdução pretendeu trazer alguns subsídios que facilitassem ao leitor situar as Sete lições sobre educação de adultos no contexto da vida e da obra do autor. Espero ter atingido esse objetivo.
Dermeval Saviani São Paulo, abril de 1982

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Hemetério Cabrinha (1892-1959)










Falando a meu coveiro


É aqui neste lugar, ao pé deste cipreste,

junto a este mausoléu. Pega uma enxada, cava
sete palmas de chão! Anda depressa, grava
no teu semblante mudo o riso que escondeste!
Abre o meu leito eterno... O meu lugar é este!
Quero nele abafar minha paixão escrava!
Quero enterrar-me logo... a vida já me agrava...
Depressa! A minha dor de dores se reveste!

Alarga-a mais um pouco, afasta mais a areia!
Ela, assim como está, torna-se muito feia, profunda-a mais... trabalha! Este dinheiro é teu!

Que é isso? Um crânio aí? Dá-mo, quero beijá-lo.
Limpa-lhe bem o pó! Dá cá, quero estudá-lo
Como alguém algum dia há de estudar o meu!

(Vereda iluminada! 1932

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O Cristo do Corcovado

No escalavrado píncaro da serra,
Que o luar alveja e a luz do sol estanha;
E onde a cidade, abençoando a terra,
Se espreguiça na falda da montanha;
Ergue-se o Cristo-Redentor, coitado!
Braços ao ar, o triste olhar cravado
Na base de granito que o suporta
De alma apagada e a consciência morta.
O Cristo cujo busto alvinitente,
Granítico, imponente
E lavado de sol;
Aureolando de alvura o Corcovado,
Qual Prometeu, virado
Para o horizonte, a medir o arrebol;
E, de distância imensurável, visto
Qual uma forma etérea
É apenas um Cristo
Feito à custa de angústias e miséria.
Se o Cristo real, na sua pura essência,
Inebriado de amor e de demência,
Dos céus viesse e visse a sua imagem
Naquela pétrea e estúpida roupagem!
—Monstrengo exposto
Ao sol, à chuva, à neve, á ventania,
Tendo a seus pés um povo em agonia;
Em seu cândido rosto
De Santo deixaria
Mil lágrimas de fel correrem doloridas,
E de olhos para os céus,
E de mãos estendidas
Para Deus,
Numa exortante súplica sem fim,
A Escribas e Fariseus,
Calmo e sereno, falaria assim:
—Quando vim entre vós, há quase dois mil anos,
Sem ter onde pousar a fronte iluminada;
Saturando de amor os corações humanos
E chamando ao redil a ovelha tresmalhada;
.............................................
Ninguém me compreendeu, ninguém quis escutar-me,
E numa sanha hostil, num tresloucado alarme
Levaram-me ao Calvário... Em hórridos baldões,
Deram-me, após magoar-me, a morte entre ladrões.
Só porque muito amei os pobres sem mansarda
Que a maldade feral do mundo os acobarda
E lança á execração Em minha singeleza,
Prometi-lhes o céu em troca da pobreza;
Elevando-lhes a alma aos páramos divinos;
Ao meu seio chamando os vis, os pequeninos,
Os que vivem na terra amarguradamente
Atirados ao léu, num desprezo inclemente,
Sob o azorrague atroz dos maus, dos impudicos
Que pensam Deus haver apenas para os ricos.
Para levar a luz da fé por toda a parte,
E fazer drapejar meu celeste estandarte,
A quem fui eu buscar com infinito amor?
A uma mulher perdida e um simples pescador.
À perdida - Magdala - abri meu coração
E a minha alma ofertei ao pescador Simão
Simão, que sem burel, cetro, trono ou tiara,
Iletrado e plebeu, de amor se iluminara
Por mim, na terra foi da caridade o exemplo;
Numa velha palhoça erigiu o meu templo,
Pondo, nele, em lugar de altares e esplendores,
Catres, para acolher humildes sofredores. .
A moeda que caía em seu fardel de esmola,
Com a bondade dos céus que os santos aureola,
Era qual grão de trigo ao bom pão levedado,
Para matar a fome e a dor do desgraçado.
Foi assim que pedi nas horas de agonia;
Foi assim que ensinei, era assim que eu queria
Que se fizesse sempre em meu nome. Entretanto,
Dois séculos depois, meu Evangelho Santo
Sumia-se no vai dos baixos egoísmos.

E, cavando entre mim e a nova fé abismos,
Os servos da ambição, numa luta assassina,
Mancharam a pureza excelsa da Doutrina;
Perseguindo, matando e roubando em meu nome,
Levaram meus fiéis á cremalheira, à fome.
Dando aos que muito amei a cicuta, o falemo,
E em negra ‘Inquisição” o imaginado inferno...

E para impressionar, abismar, deslumbrar,
Ergueram em cada canto um palácio e um altar
Fulgentes de européis e fina pedraria,
Enquanto os bons cristãos sucumbem de agonia.
Ergueram, para quê, no alto do Corcovado
Minha estátua? - se em tomo há tanto desgraçado
Que se pede em meu nome a paz para aflição,
Em meu nome recebe, em troca, a maldição?
Para que o esplendor de régio monumento
Se de dor me perturba o humano sofrimento?

Não vos disse a vibrar em meu amor fecundo,
Que meu reino imortal não era deste mundo?

Das arcas arrancai o tesouro guardado
E ide! Ide buscar a todo o desgraçado,
Que é filho de meu Pai e também nosso irmão,
Dando-lhe o pão do corpo, a paz do coração,
A luz da consciência! . .. E onde ouvirdes um ai,
Com desmedido amor do infortúnio arrancai
Essa alma a se estorcer nos desesperos seus,
E em memória de mim, erguei-a para Deus!

E manso, humilde e bom; cheio de amor e luz,
Era assim que diria o angélico JESUS.

(O Cristo do Corcovado/1952)


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A Pororoca
Hemetério Cabrinha (1892-1959)


Calmo, sereno, plácido, espelhante,
Nas horas de luar, frias e brancas,
O Mearim, gargalhando nas barrancas,
Se estende, estica e perde-se distante.

O céu, como uma concha de safira
Emborcada por toda a Natureza,
Enche a paisagem de real grandeza
Enquanto o rio pelo chão se estira.

A floresta conserva-se parada;
Nenhuma folha quebra-lhe o silêncio.
E o intérmino trajeto, o rio vence-o
Calmo dentro da noite enluarada.

Mas, um rumor, ao longe, de repente,
Ecoando à distância, estruge, esturra...
Uma invisível força o rio empurra
De encontro às margens assombrosamente.

As águas fervem, tumultuam, crescem
Alagando, destruindo, aniquilando,
Num furor infernal arrebatando
Árvores altas que nas águas descem.

As raízes do solo se deslocam
Sob a fúria dos bruscos elementos.
Ondas revoltas, vagalhões violentos,
Na agonia das margens se rebolam.

Em derredor das ribeirinhas zonas
Nada fica que o rio não ameace;
Como se no seu dorso galopasse
Um tropel de raivosas amazonas.

Embarcações desgarram-se, afundando,
Quebrando amarras, rebentando mastros.
E a Pororoca, em seus sinistros rastros,
Rola por entre abismos esturrando.

Depois... Volta o silêncio. O rio desce;
Plácido e manso o curso continua.
Enquanto branca e só se esconde a lua
Como se nada acontecido houvesse...

Mesmo assim somos nós, nas nossas trocas
De amores e emoções. Tranquilamente,
Quando mal esperamos, de repente
Rebentam n’alma doidas pororocas.









Quem Fui e o Que Serei




Fui húmus, fui cristal, fui pedra bruta,

E nas substâncias da matéria inerme,

Vim desde a vibração ao paquiderme,

Após milhões de séculos de luta.



Monera, larva, lama, lêsma, verme

Fui, (para a expansão da Causa Absoluta

De onde a vida nos corpos se transmuta)

Até sentir calor na minha derme.



Na transcendente hereditariedade,

A minha rude personalidade

Chegou a ser o que é na vida hodierna...



E daqui para além irei seguindo,

Evoluindo sempre, evoluindo

Até chegar à Perfeição Eterna.



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Convicção




Tenho a certeza de já ter vivido

Através de outros mundos, de outras eras;

Na rude embriogenia das moneras,

Microcósmicamente impercebido.



Grão de pó entre abismos e crateras,

Nos turvos elementos confundido.

Hei por milhões de séculos sofrido

Entre minérios, vegetais e feras.



Rolei no caos da natureza bruta,

Conseguindo, através de intensa luta,

Chegar à borda dêste humano abismo.



Partícula do Todo simplesmente,

Mas já sentindo no evolver da mente

A razão dêste eterno transformismo.



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De onde Venho?




Da grande Fôrça universal procedo

E venho de outras vidas, de outros mundos;

Por indisíveis dédalos profundos

Inconscientemente me enveredo.



Às minúsculas formas antecedo:

Da vibração aos corpos mais fecundos.

Transformando-me todos os segundos,

"Mergulhado no cósmico segrêdo".



Sou, para os sábios da moderna ciência,

Um simples animal que tem consciência,

Vivendo apenas entre o berço e a cova...



Entretanto, através do próprio lôdo,

Todo o universo se transforma, todo,

E a própria Eternidade se renova.



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A Pororoca





Calmo, sereno, plácido, espelhante,
Nas horas de luar, frias e brancas,
O Mearim, gargalhando nas barrancas,
Se estende, estica e perde-se distante.
O céu, como uma concha de safira
Emborcada por toda a Natureza,
Enche a paisagem de real grandeza
Enquanto o rio pelo chão se estira.
A floresta conserva-se parada;
Nenhuma folha quebra-lhe o silêncio.
E o intérmino trajeto, o rio vence-o
Calmo dentro da noite enluarada.
Mas, um rumor, ao longe, de repente,
Ecoando à distância, estruge, esturra...
Uma invisível força o rio empurra
De encontro às margens assombrosamente.
As águas fervem, tumultuam, crescem
Alagando, destruindo, aniquilando,
Num furor infernal arrebatando
Árvores altas que nas águas descem.
As raízes do solo se deslocam
Sob a fúria dos bruscos elementos.
Ondas revoltas, vagalhões violentos,
Na agonia das margens se rebolam.
Em derredor das ribeirinhas zonas
Nada fica que o rio não ameace;
Como se no seu dorso galopasse
Um tropel de raivosas amazonas.
Embarcações desgarram-se, afundando,
Quebrando amarras, rebentando mastros.
E a Pororoca, em seus sinistros rastros,
Rola por entre abismos esturrando.
Depois... Volta o silêncio. O rio desce;
Plácido e manso o curso continua.
Enquanto branca e só se esconde a lua
Como se nada acontecido houvesse...
Mesmo assim somos nós, nas nossas trocas
De amores e emoções. Tranqüilamente,
Quando mal esperamos, de repente
Rebentam n’alma doidas pororocas.





Velho tronco


Olha esse tronco de árvore esgalhado,
levado à toa pela correnteza.
Quem nos sabe contar o seu passado?
Quem nos diz sua história? Com certeza

Floriu, frutificou, teve seu fado,
foi luz, foi pão, foi ouro, foi grandeza,
teve um viver de inveja saturado,
foi um sorriso aberto à natureza.

Vê! como ele vai sereno, a esmo,
arrastando o cadáver de si mesmo
para um destino torturante, triste...

No entanto, quantas vezes não enchera
de frutos bons, a mão que o abatera!
...Como esse tronco muita gente existe!


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De onde Venho?




Da grande Fôrça universal procedo

E venho de outras vidas, de outros mundos;

Por indisíveis dédalos profundos

Inconscientemente me enveredo.



Às minúsculas formas antecedo:

Da vibração aos corpos mais fecundos.

Transformando-me todos os segundos,

"Mergulhado no cósmico segrêdo".



Sou, para os sábios da moderna ciência,

Um simples animal que tem consciência,

Vivendo apenas entre o berço e a cova...



Entretanto, através do próprio lôdo,

Todo o universo se transforma, todo,

E a própria Eternidade se renova.



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Geminidade




Numa gôta de orvalho escassa, cintilante,

Há um mundo a rolar latente, palpitante

Em sua pequenez etérea, cristalina,

Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;

Há um beijo de Deus para exaltar a vida...

E essa gôta do céu, na pétala caída,

Vivificando a planta e colorindo a flor,

Tem para a Natureza uma expansão de amor.



Assim também o pranto -- a lágrima tremente --

Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente

De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza

Apagou, para dar emocional beleza

Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;

Traz em seu cintilar o que há de mais sublime

Nos refolhos sutís da alma desolada;

E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,

Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,

Um ósculo de Deus na exaltação da dor.


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


A Pororoca

Calmo, sereno, plácido, espelhante,
Nas horas de luar, frias e brancas,
O Mearim, gargalhando nas barrancas,
Se estende, estica e perde-se distante.
O céu, como uma concha de safira
Emborcada por toda a Natureza,
Enche a paisagem de real grandeza
Enquanto o rio pelo chão se estira.
A floresta conserva-se parada;
Nenhuma folha quebra-lhe o silêncio.
E o intérmino trajeto, o rio vence-o
Calmo dentro da noite enluarada.
Mas, um rumor, ao longe, de repente,
Ecoando à distância, estruge, esturra...
Uma invisível força o rio empurra
De encontro às margens assombrosamente.
As águas fervem, tumultuam, crescem
Alagando, destruindo, aniquilando,
Num furor infernal arrebatando
Árvores altas que nas águas descem.
As raízes do solo se deslocam
Sob a fúria dos bruscos elementos.
Ondas revoltas, vagalhões violentos,
Na agonia das margens se rebolam.
Em derredor das ribeirinhas zonas
Nada fica que o rio não ameace;
Como se no seu dorso galopasse
Um tropel de raivosas amazonas.
Embarcações desgarram-se, afundando,
Quebrando amarras, rebentando mastros.
E a Pororoca, em seus sinistros rastros,
Rola por entre abismos esturrando.
Depois... Volta o silêncio. O rio desce;
Plácido e manso o curso continua.
Enquanto branca e só se esconde a lua
Como se nada acontecido houvesse...
Mesmo assim somos nós, nas nossas trocas
De amores e emoções. Tranqüilamente,
Quando mal esperamos, de repente
Rebentam n’alma doidas pororocas.

(Frontões)

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Pátria


Hemetério Cabrinha

Pátria – é o azul deste céu – cetim que nos orgulha.
É o amor de nossa mãe a cantar dentro d’alma.
É a saudade do berço. É a vaga que marulha,
Espuriamente e cruel, sem destino e sem calma!
É a sublime expressão do idioma que falamos,
Uns farrapos de luz em nossos olhos baços.
É o sabiá despertando a harmonia nos ramos
Quando o sol lança, no ar, seus primitivos traços!
É a ênfase divinal de um sonho imorredoiro,
Arrancando orações do nosso lábio mudo.
É este imenso rincão emoldurado em oiro...
Este solo abrasado e em berço de veludo!
É o Amazonas, brutal, essecoleando ansioso
Ora, revolto e mal; ora, em rumor de festas
Levando para o oceano outro mar caudaloso
Na saudade aromal destas verdes florestas.
É o mugido dos bois, no madrugar dos campos,
O arado do progresso, a gleba removendo.
É a noite a despertar milhões de pirilampos
Que, pelo escuro, vão sutis fosforescendo.
É o pendão auriverde a tremular nos mastros,
Panejando, soberbo, às carícias do vento...
São mil bustos de heróis, em plintos de alabastros,
São as bênçãos de luz do nosso pensamento.
É a voz do Rui Barbosa atravessando os Andes,
Portentosa e sublime, a proclamar Justiça!
É a conjunção do amor dos pequenos e grandes,
O morrer afrontando e em desbragada liça.

Pátria – é a luz deste sol que nos aquece os músculos!
É o filho que nos beija. É a mãe que nos consola.
É a apoteose do azul, em todos os crepúsculos.
É a choupana embolada, ao tilintar da viola,
É a rouxinolação dos pássaros em maio.
É o outono esmaltando as folhas do pau d’arco.
É a palmeira, a rolar, fulminada do raio.
É o coaxar dos répteis no marulho do charco.
São os galos “riscando” em madrugadas d’oiro,
Deslumbrados de vir encantados da aurora.
É a onça em disparada, ao mugido do toiro!
É o sorriso de alguém dentro da alma que chora.
A Pátria que conheço é tudo finalmente!
É o orgulho que eleva. É o amor que domina.
É aperola engastada, esbelta e refulgente
No invejável colar da América Latina.
Pátria – Brasil que adoro e me prende e reanima
Na magoada expressão de alguns olhos sem lume.
És meu verso cantando a epopéia da rima.
És a vida. És o amor. És o som e o perfume.
Quando eu sulcar da morte o ilimitado espaço,
Arrastando da vida o derradeiro anseio,
Pátria! Deixa dormir em teu livre regaço
O meu corpo gelado ao calor do teu seio!

O mundo me foi sempre avesso, duro, escasso:
Eu vivo como que entre tenazes de aço,
Sem direito a gemer nem desferir um grito.
O que me apraz, porém, anima-me, consola,
É ter esta amplidão azúlea por gaiola
E poder contemplar os astros no infinito.
Existem para mim só aflições extremas:
Meus punhos sentem sempre o jugo das algemas
Chumbadas às ambições dos baixos sentimentos.
Mas o que me enternece e deslumbra minhalma,
É conhecer a vida e conquistar a calma
Na divina expansão dos grandes sofrimentos.

Disseram que eu morrera. Ainda é tão cedo
Para deixar em paz o velho mundo,
Onde, por entre espinhos me enveredo.
Como um simples rafeiro vagabundo. rafeiro: cão
Bem quisera eu fugir deste degredo!
Deste terrível lupanar imundo, lupanar: prostíbulo
Onde, hoje, a vida é simplesmente o enredo
De um romance de fel e dor fecundo.
Para que viver mais, quem sobre os ombros,
A cruz da vida tem pesado tanto,
E trá-la a tropeçar por entre escombros?
Disseram que eu morrera. No entretanto,
Como um fantasma vil causando assombros
Ainda arrasto o cadáver por enquanto


Em Busca da Perfeição



A alma que busca exílio nas clausuras
Emotivas da vida transitória,
Traz em em sua odisséia, em sua história
As conseqüências das ações impuras.
Absorvida nas dores, nas torturas,
No desespero de uma luta inglória,
Percorre amargurada trajetória
Em sucessivas existências duras.
Reparando a fraqueza de seus atos,
Como cego levados pelos tatos,
Busca na treva a meta desejada.
Até que um dia, em vestes vaporosas,
Abre no espaço as asas luminosas
e conquista a Mansão Iluminada.


ENGANOS


Por que me deste sorrindo,
Tantos beijos, tanto amor?
E agora de mim fugindo,
Em meu seio vais abrindo
Uma cratera de dor?
Teu amor foi meu calvário,
Os teus braços minha cruz.
Teu coração, meu sacrário,
Teus lábios, meu breviário
E os teus olhos, minha luz.
Enleado em teu carinho,
Ocupei teu coração.
Hoje, tristonho e sozinho,
Sou um pássaro sem ninho,
Às tontas pela amplidão.
Vivi no teu pensamento
Como um sol de áureo matiz.
Eras o meu firmamento
E agora, no esquecimento,
Sou vaga-lume infeliz.



Idílio



Quando nós dois a sós nos encontramos,
As nossas almas lúbricas se beijam.
Rebentam rosas no verdor dos ramos
E aves em festa pelo azul voejam.
Tudo em torno de nós desperta e canta.
Canta e desperta anseios e desejos.
A Natureza, a rir de amor, se imanta
Na glorificação de nossos beijos.
O sol tem mais fulgor, a lua encanto;
As estrelas mais brilho, a flor, fragrância
E o nosso idílio emocionante e santo
Enche os espaços de emotivas ânsias.
Verdejam campos. Há prazer em tudo;
Rumorejam de amor fontes e lagos.
Franja-se o céu de alvíssimo veludo
Para testemunhar nossos afagos.
E os nossos corpos, de prazer sedentos,
Saturam-se de gozos e desejos;
Cada vez mais estreitam-se violentos
Numa explosão frenética de beijos.





CANÇÃO DO AMAZÔNIDA


Caboclo: – Nasci na selva
Onde canta o uirapuru.
Onde, no verde da relva,
Corre a alígera inhambu.
No meu tapiri de palha,
Onde o céu, à noite, o orvalha
E a luz da lua branqueia,
Passa o rio murmurando,
Pelos barrancos cantando
Mil canções à lua cheia.
Sou feliz, nada me falta
Dentro da selva bravia.
Se uma tristeza me assalta,
Logo me vem a alegria.
De manhã, quando me acordo,
Mil aventuras recordo
Ouvindo a onça rosnar.
No cheiro agreste da mata,
Minha vida se dilata
E então me ponho a cantar.
Quanta lindeza se encerra
No rincão onde nasci!
Se deus andou pela terra
Nasceu no meu tapiri.
Decerto, porque em tudo,
Desde a relva de veludo
À sombra dos igapós;
Há tanta beleza, há tanta,
Que Deus parece que canta
No eco de nossa voz.


O GRILO



Tenho um perseguidor incômodo, imprudente
Que me não deixa em paz, calmo e tranqüilo.
Esconde-se a cantar a um canto, impertinente,
E eu tenho que passar a noite inteira a ouvi-lo.
Se acaso me levanto e busco esse insolente,
Mudando de lugar ele emudece o trilo.
Enraiveço... Maldigo-o e, logo, novamente
Grita mais alto ainda... É um desgraçado grilo.
Hoje, pensando bem nesse irritante intruso
Cujo horrente trilar é um desmedido abuso
Provocando, afinal, a minha paciência;
Concluí: A mesma cousa à nossa alma acontece:
Após um ato mau o remorso aparece
Como o grilo a gritar dentro da consciência.





A ARANHA




Eu tenho uma fidalga e loira companheira
Que, sempre a meditar, de vê-la não me farto.
É um triste e sozinha aranha tecedeira,
Dia e noite a tecer labirintos no quarto.
Ora desce, ora sobe até a cumeeira;
Ora balouça no ar o seu trabalho infarto.
E, de fios de prata, a aranha fiandeira
Uma estrela bordou num ângulo do quarto.
Hoje, pela manhã, outra aranha doirada,
Num idílio de amor, de gozos saciada,
Lá morreu e ficou na teia cetinosa...
Assim mesmo acontece a todos nós, querida:
– Quem somente se entrega aos prazeres da vida,
Terá o mesmo fim da aranha desditosa.






PRETO VELHO


Preto velho está cansado,
Trôpego, exausto, sem fé.
Vem de longe, acabrunhado,
Lá de Luanda ou Guiné...
Já não sabe... Há quantos anos,
Um magote de tiranos
O trouxera de rojão.
No bojo esconso de um barco,
Como um batráquio no charco,
Nos ferros da escravidão.
Preto velho era menino,
Quando, em doirada manhã,
Alheio ao rude destino,
Brincava com sua irmã;
Três caçadores de gentes,
Naquelas paragens quentes
De sua terra natal.
Sorrateiros, se acercaram
Do preto e a irmã, e os laçaram
Como a qualquer animal
Enlaçados, sacudidos
No fundo da embarcação;
Entre gritos e gemidos
De uma negra multidão.
E quanto mais se gritava,
Duro chicote vibrava
Nos lombos nus a doer.
Era um inferno fervendo,
Uns gritando, outros gemendo
Na agonia de sofrer.




Em busca da perfeição


A alma que busca exílio nas clausuras
Emotivas da vida transitória,
Traz em sua odisseia, em sua história
As consequências das ações impuras.

Absorvida nas dores, nas torturas,
Nos desesperos de uma luta inglória,
Percorre amargurada trajetória
Em sucessivas existências duras.

Reparando a fraqueza de seus atos,
Como o cego levado pelos tatos,
Busca na treva a meta desejada.

Até que um dia, em vestes vaporosas,
Abre no espaço as asas luminosas
E conquista a Mansão Iluminada.







Por enquanto, não








Disseram que eu morrera. Ainda é tão cedo
Para deixar em paz o velho mundo,
Onde, por entre espinhos me enveredo,
Como um simples rafeiro vagabundo.

Bem quisera eu fugir deste degredo!
Deste terrível lupanar imundo,
Onde, hoje, a vida é simplesmente o enredo
De um romance de fel e dor fecundo.

Para que viver mais, quem sobre os ombros,
A cruz da vida tem pesado tanto,
E trá-la a tropeçar por entre escombros?

Disseram que eu morrera. No entretanto,
Como um fantasma vil causando assombros
Ainda arrasto o cadáver por enquanto.


HEMETÉRIO CABRINHA


Rogel Samuel



Talvez o leitor, a leitora, nunca tenha ouvido falar de Hemetério Cabrinha. É dele o soneto abaixo:


Falando a meu coveiro


É aqui neste lugar, ao pé deste cipreste,
junto a este mausoléu. Pega uma enxada, cava
sete palmas de chão! Anda depressa, grava
no teu semblante mudo o riso que escondeste!

Abre o meu leito eterno... O meu lugar é este!
Quero nele abafar minha paixão escrava!
Quero enterrar-me logo... a vida já me agrava...
Depressa! A minha dor de dores se reveste!

Alarga-a mais um pouco, afasta mais a areia!
Ela, assim como está, torna-se muito feia, profunda-a mais... trabalha! Este dinheiro é teu!

Que é isso? Um crânio aí? Dá-mo, quero beijá-lo.
Limpa-lhe bem o pó! Dá cá, quero estudá-lo
Como alguém algum dia há de estudar o meu!
(Vereda iluminada! 1932)


Ele era carpinteiro em Manaus, e viveu de 1892 a 1959.

Eu o conheci, já no fim da vida, na sede do jornal "A crítica". Eu era muito jovem.

Ele declamava um poema de Castro Alves, numa roda de linotipistas e jornalistas da época.

Era um homem simples, mas cheio de glória, majestade.

Parece que foi reeditado no Amazonas, também não sei.

O Soneto revela leitura de Shakespeare. Inclusive o "cipreste" é planta que nào creio que exista no Amazonas.

Alguns dos melhores momentos pós-parnasianos encontramos em sua poesia.

Dia virá em que os poetas parnasianos tardios serão valorizados.

No Brasil, o parnasiano avança e duvido que até hoje tenha ido embora.

Vemos o parnasianismo tardio até em João Cabral, Vinícius etc. Ser parnasiano, no Brasil, não deve ser pecado.

Cabrilha começa localizando o lugar: "É aqui neste lugar, ao pé deste cipreste, / junto a este mausoléu." E: " O meu lugar é este!"

As repetições de (4) "estes", aponta, funda, determina o seu leito de morte, a grandeza, o sublime que se acha em: " Abre o meu leito eterno..."

A ação operária se segue em : "Pega uma enxada, cava / sete palmas de chão!" E a ironia da situação aparece em: "Anda depressa, grava / no teu semblante mudo o riso que escondeste!"

Segue-se um momento de dramaticidade shakespeariana: " Quero nele abafar minha paixão escrava! / Quero enterrar-me logo... a vida já me agrava... / Depressa! A minha dor de dores se reveste!"

São versos fortes, que ultrapassam o nível de poeta de província que se supõe que ele seja.

Repare nas assonâncias em: enxada, cava, palmas, grava, escrava, agrava - o que revela a sua maestria verbal nas palavras que cercam o sêmen da palavra "enxada".

Diz o poeta: "... a vida já me agrava..." - ele vai morrer. Continua:

Alarga-a mais um pouco, afasta mais a areia!

Ela, assim como está, torna-se muito feia, profunda-a mais... trabalha! Este dinheiro é teu!

Ele paga ao coveiro. Com isso revoluciona. E vê o crânio.

Que é isso? Um crânio aí? Dá-mo, quero beijá-lo.
Limpa-lhe bem o pó! Dá cá, quero estudá-lo
Como alguém algum dia há de estudar o meu!

Eu não devia estar falando de política? Sim, e estou. Participando de um enterro...

De quê? De quem? Melhor não falar.




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A VISÃO DO MAR

Rogel Samuel

Mas não sei como poderia subsistir hoje sem a visão do mar, como nas “Palavras ao mar”, de Vicente de Carvalho:

“Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.”

Vicente de Carvalho, que era paulista, de Santos, assim o disse. Quando ele nasceu...

“Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro;
E as leves garças, como olhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...”

Este hino ao mar, um dos melhores, amplo, sonoro, Vicente de Carvalho escreveu. Nasceu em abril, como diz o poema, no dia 5 de abril de 1856, “O claro mês das garças forasteiras / Abril, sorrindo em flor pelos outeiros, / Nadando em luz na oscilação das ondas”. Poeta feliz, ou melhor, da felicidade, da felicidade luminosamente azul:

“Sei que a ventura existe,
Sonho-a; sonhando a vejo, luminosa.
Como dentro da noite amortalhado
Vês longe o claro bando das estrelas;
Em vão tento alcançá-la, e as curtas asas
Da alma entreabrindo, subo por instantes...
O mar! A minha vida é como as praias,
E o sonho morre como as ondas voltam!”

Os olhos descansam na visão oceânica. Além disso, Vicente de Carvalho também foi aguerrido jornalista. Escrevia na imprensa, defendendo suas idéias. Foi deputado, Constituinte do Estado, em 1891. Seu ritmo é oral, como de tribuno, em:

“Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Ouço-te às vezes revoltado e brusco,
Escondido, fantástico, atirando
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas...

Também eu ergo às vezes
Imprecações, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga
Que traçou meu destino... Crime absurdo
O crime de nascer! Foi o meu crime.
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
E, dando as asas, não permite o vôo!”

Em Santos ele faleceu. Em 22 de abril de 1924, aos 68 anos. Herdou o verso forte de Castro Alves. O verso: “A que as brisas da terra o sono embalam”, lembra o de Alves: “que a brisa do Brasil beija e balança”, em:

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...

Esta estrofe ousada, esta ousadia poética de Castro Alves, de rasgar a Bandeira Nacional num poema, poderia, em outros tempos, levá-lo à prisão. Entretanto vivia na liberdade de seu tempo democrático, heróico, nos versos decassílabos heróicos, com acentos 6 - 10: -------dão------ter / ----- sil ------ lan.

Auriverde penDÃO de minha TERra,
Que a brisa do BraSIL beija e baLANça

O Brasil oscila, ali. Aos ventos. Aquele navio cheio de escravos era bem brasileiro. Uma “vergonha”, diz ele. Lembro-me do poeta amazonense Hemetério Cabrinha a recitar, na Rua Saldanha Marinho, em Manaus, na porta do jornal “A crítica”:

Era um sonho dantesco o tombadilho
que das luzernas avermelha o brilho...

Ele me lembra o seu próprio poema “O Cristo do Corcovado”:

“No escalavrado píncaro da serra,
Que o luar alveja e a luz do sol estanha;
E onde a cidade, abençoando a terra,
Se espreguiça na falda da montanha;
Ergue-se o Cristo-Redentor, coitado!
Braços ao ar, o triste olhar cravado
Na base de granito que o suporta
De alma apagada e a consciência morta.
O Cristo cujo busto alvinitente,
Granítico, imponente
E lavado de sol;
Aureolando de alvura o Corcovado,
Qual Prometeu, virado
Para o horizonte, a medir o arrebol;
E, de distância imensurável, visto
Qual uma forma etérea
É apenas um Cristo
Feito à custa de angústias e miséria.”

O poema inteiro está no nosso sítio, em:

http://www.geocities.com/rogelsamuel/cabrinha.html

O verso: “Que a brisa do Brasil beija e balança” tem 4 “bb” de beijos. A bandeira aí ondula aos beijos dos ventos. Nas cores do céu, nas cores da esperança. A bandeira irradia sol. Irradia patriotismo. “Estamos em pleno mar”, o mar azul, o “mar da memória” do amazonense Sebastião Norões:

“Eu quero é o meu mar, o mar azul.
Essa incógnita de anil que se destrança
em ânsias de infinito e me circunda
em grave tom de inquietude langue.
O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,
delimitava imprevisíveis rumos
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.
Rebenta em mim essa aspersão tamanha
que a imagem imatura concebeu
de quando o mar era meu, o mar azul.”

Coube a este amazonense a glória de ter escrito um dos mais belos sonetos do mar. Longe do mar. Só de memória. Norões nasceu no dia 7 de março de 1915, em Humaitá, Rio Madeira e faleceu em Manaus. Estudou em Fortaleza. Aos 18 anos volta para Manaus, faz a Faculdade de Direito. Professor no Colégio Estadual, onde foi meu professor de geografia. Exerceu o cargo de Chefe de Polícia do Estado, quando escondeu e deu fuga ao comunista Jorge Amado. Membro do Clube da Madrugada e da Academia Cearense de Letras. “Poesia Freqüentemente” é livro de minha predileção. Ali sentimos sua poesia viva, sua poesia azul. Nesta pequena obra-prima, que é “Mar da memória”, a ânsia de infinito, como se o poeta quisesse voar, escapar do estreito espaço em que se movia, alcançar Alascas e Austrálias. Revela lembranças, do mar, dos verdes mares de Fortaleza, do mar literário, do mar de Alencar, que era verde. Mas quando “o mar é meu”, o mar de minha memória, é azul, e não verde, de minhas lembranças que se voltam para os céus, dos imprevisíveis rumos de minha vida, sonhada ainda, de imprevisíveis rumos. Pois “arte é o homem acrescentado à natureza”, escreveu Van Gogh, em carta a Théo de 1879. E ele entendia de azul, de delirante azul.


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O CHARME DO PAPEL

Rogel Samuel


Sim, depois de alguns anos vivendo só da Internet, este cronista volta a ter coluna em jornal de papel. No «Correio do Sul». De Minas.
No começo, mantive coluna diária em jornal. Era jovem, tinha energia de escrita, vontade de trabalho. Ainda hoje releio com receio os poucos recortes que restaram, que se salvaram da mudança da amiga que os guardava. Foram defenestrados como lixo, se possível fosse jogar lixo, papel velho, pela janela, como a palavra sugere. Destruídos os recortes, certa vez passei uma semana em consulta aos velhos jornais da época que sobreviveram à traça e tempo.
Naquela época heróica, nós nem passávamos pelo chefe de redação. Íamos diretos ao linotipista. Aquele o tempo do linotipo. Coisa de chumbo. Sempre à noite que vínhamos nós, originais no bolso. Havia gente que escrevia diretamente no linotipo.
O trabalho no jornal entrava noite a dentro. Os ruídos das impressoras eu os ouço até hoje, e o cheiro de tinta ainda me impregnam os sentidos.
Em 1960, cometi tolice exemplar. Por meio do diretor comercial, de nome Senna, sou convidado para ingressar no corpo da redação da TV Rio. Não aceitei. O trabalho era noturno, sem hora para terminar, e eu tinha aula pela manhã na Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, onde me formei em letras. Naquele tempo parece que ali devia trabalhar Walter Clark e o Bôni, ambos da Globo. Eles deviam ter a minha idade. No pouco tempo que ali estive vi gente como Juscelino Kubstchek. Deixei de trabalhar na TV, passei a lecionar no subúrbio. Opção idiota.
O ambiente de jornal era ótimo, naquele tempo. Não só se discutia política, mas literatura. Foi lá que ouvi Hemetério Cabrinha, o poeta, a recitar Castro Alves: «Era um sonho dantesco... o tombadilho». Sim, ele era dramático, principalmente quando entoava o seu «Falando a meu coveiro», um dos seus mais belos poemas:


É aqui neste lugar, ao pé deste cipreste,
junto a este mausoléu. Pega uma enxada, cava
sete palmas de chão! Anda depressa, grava
no teu semblante mudo o riso que escondeste!
Abre o meu leito eterno... O meu lugar é este!
Quero nele abafar minha paixão escrava!
Quero enterrar-me logo... a vida já me agrava...
Depressa! A minha dor de dores se reveste!
Alarga-a mais um pouco, afasta mais a areia!
Ela, assim como está, torna-se muito feia, profunda-a mais... trabalha! Este dinheiro é teu!
Que é isso? Um crânio aí? Dá-mo, quero beijá-lo.
Limpa-lhe bem o pó! Dá cá, quero estudá-lo
Como alguém algum dia há de estudar o meu!

Sim, ele era dramático. Dantesco e shakespeariano. Voz forte, gestualidade grandiosa, tensa, teatralidade assustadora, densa. Olhos ensandecidos de poética.
Aquela era a época das polêmicas. Polemizávamos em versos (!) com o poeta Benjamim Sanches. Assinando Calixto Diniz. Sanches, uma ocasião, respondeu assim: «Cá li isto que você escreveu...» Ele era autor de «Argila» (1953), um livro cor de barro. Certa vez, encontrei a edição quase inteira, esquecida, não vendida, mofando, morrendo num canto do chão de velha e empoeirada livraria. Sanches era melhor contista. Escrevia bem. Não mereceu ficar esquecido. Sua poesia é como em «Transe»:

Em êxtase fitava o céu molhado,
Umedecidos por um cinza brando
E o sangue nas artérias congelado,
As lágrimas no rosto vão rolando.
No espaço um olhar vívido cravado,
O pensamento no ar gesticulando,
Do meu céu ao inferno, condenado,
Eu andei sem saber se estava andando.
Quando saio daquele sobressalto,
Como quem sonha mesmo quando acorda,
Tenho minha alma presa lá no alto,
Vendo o meu corpo nesta lassidão,
Sob o peso das dores que transborda,
Um monstro se arrastando pelo chão.

("Argila", pág. 95, Manaus, 1957).

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Hemetério Cabrinha


Por Ulisses Bittencourt




Chamava-se, na realidade, Hemetério José do Santos, havendo incorporado ao nome o apelido Cabrinha. Espírito de luz, nasceu em Fortaleza, a 3 de março de 1892, tendo desencarnado a 12 de fevereiro de 1959. Veio em 1918 para Manaus, onde cumpriu a sua missão por mais de quatro décadas. Foi operário, na qualidade de marceneiro e, sem freqüentar escolas, acabou transformando-se num intelectual respeitado, num vibrante orador, livros publicados, tudo pela pura força espiritual e capacidade de trabalho. Poeta espontâneo, deixou os seguintes livros: Frontões, Satã, Caim, Meu Sertão, o drama em três atos Regeneração e o mais conhecido, Vereda Iluminada; colaborou em diversas revistas e trabalhos inéditos.



Quando Vargas veio a Manaus em 1940, Hemetério saudou-o com arrebatador improviso em praça pública, o que muito impressionou o então Presidente, acostumado a ouvir grandes tribunos, e este, ao retornar ao Catete, nomeou-o para alto cargo no Ministério do Trabalho, por considerá-lo líder nato do operariado amazonense.



Espiritualista praticante, Hemetério Cabrinha atingiu um vigoroso grau de desenvolvimento espiritual, sempre exercido exclusivamente na direção do bem, no sentido de dar conforto aos angustiados e sofredores. Pela última vez vi-o discursar em março de 1958, numa homenagem, em festa magna, que o Centro de Irradiação Mental do Tattwa Nirvana prestava ao Irmão Agnello Bittencourt.



O carpinteiro era, pela palavra e pelo verso, o Mestre, que dizia, em sua autêntica profissão-de-fé: “A esmola que se dá, sem humilhar quem pede, / É a graça maior que o Grande Deus concede / A quem dores transforma em pétalas de rosas”.

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Frontões, um marco de passagem

Zemaria Pinto





No quase-vácuo que se forma na literatura amazonense da primeira metade deste século, três poetas se destacam do marasmo geral, trazendo consigo a marca da migração que caracterizara a economia destroçada do ciclo da borracha: o maranhense Maranhão Sobrinho (1879-1915), o piauiense Jonas da Silva (1880-1947) e o cearense Hemetério Cabrinha (1892-1959). Os três escolheram viver, produzir e morrer em Manaus. Os três deixaram marcas profundas numa poesia que só viria encontrar sua verdadeira identidade a partir da década de 50, com a movimentação instituída pelo Clube da Madrugada, que sintonizaria a província ao que de melhor se produzia no resto do país.


A EDUA, Editora da Universidade do Amazonas, marca mais um gol de placa ao dar a lume a segunda edição de Frontões, o último livro de Hemetério Cabrinha, publicado em 1958. Frontões é um marco de passagem na poesia amazonense, e não por acaso Cabrinha dedica-o “aos ilustres membros do Clube da Madrugada, na figura intelectualmente destacada de Farias de Carvalho.” O tempo confirmaria na obra do então jovem poeta homenageado (Pássaro de Cinza e Cartilha do Bem Amar com Lições do Bem Sofrer) uma afinidade, um quase parentesco inegável com Cabrinha. 


Carpinteiro de ofício, na poesia Cabrinha vai mais além, construindo “frontões que o coração entre sonhos embuça”, como ele escreve em “Proêmio”, que abre o volume, fazendo um paralelo entre sua poesia e os adornos arquitetônicos que dão título ao livro: “Se meus versos não têm o esplendor de obra-prima, / A pureza da forma e a nobreza da rima... / Se lhes falta fulgor; / Há neles, entretanto, agudos sentimentos / Suavizando o clamor dos grandes sofrimentos / Urdidos pela dor.”


Parnasiano na forma (“Oiro na ganga bruta em rústica bateia”), a profissão de fé é de um nômade pós-romântico, dilacerado pela incompreensão e injustiça humanas, como podemos observar nestes fragmentos de “Resignação”: “O mundo me foi sempre avesso, duro, escasso... / Existem para mim só aflições extremas... / Em cada anseio meu há uma chaga aberta...” Não seria nenhuma ousadia afirmar que, além de Olavo Bilac − a quem parodia com reverência, melhor dizendo, intertextualiza, em “Tortura da Glória” e “Lendo Bilac” −, o português Antero de Quental (“Só males são reais. Só dor existe.”) frequentava também a cabeceira de Hemetério Cabrinha. Vem de Quental, talvez, seu gosto pelos poemas de ideias, reflexões pessoais que transgridem o conceito de que a imagem é o fundamento da poesia. Mas se a Quental atormentava e seduzia a dúvida transcendente, Cabrinha sofria com a crença exacerbada, pois boa parte dos poemas de Frontões deixa clara sua fé inabalável na doutrina espírita, como podemos perceber em “Convicção”: “Tenho a certeza de já ter vivido / Através de outros mundos, outras eras.” E apesar de acreditar que “Entretanto, através do próprio lodo / Todo o universo se transforma, todo, / E a própria Eternidade se renova”, sua vida é um calvário só, onde o sofrimento não tem nome, não é detalhado, mas existe acima de tudo, como em “Angústia”: “Quanto tenho sofrido ultimamente! / Como este mundo me tem sido avesso!”


Outro autor da predileção de Cabrinha é Augusto dos Anjos. Ainda que distante de alcançar o estro do poeta paraibano, Cabrinha “apropria-se” de seu vocabulário antilírico em versos inteiros, como em “Monera, larva, lama, lesma, verme”, “Num óvulo misérrimo e abjeto”, “Da podridão dos úteros inchados / dos sangrentos refolhos das placentas” ou em expressões como “embriogenia das moneras” ou “expansão genésica dos sexos”.


Esta aproximação superficial com Augusto dos Anjos, bem como a possível proximidade de Antero de Quental, deve levar-nos a refletir sobre o caráter contraditório da “dor” em Cabrinha. É claro que sua poesia não melhora nem piora em função de sua “sinceridade”, uma herança romântica que não acabou com o Romantismo, e, muito pelo contrário, é ainda hoje uma prática comum, a despeito do caráter intrinsecamente mercantilista da arte. Em que consiste, afinal, essa contradição em Cabrinha?


O poema “Por Enquanto, Não” é exemplar: “Disseram que eu morrera. Ainda é tão cedo / Para deixar em paz o velho mundo, / Onde, por entre espinhos me enveredo, / Como um simples rafeiro vagabundo. // Bem quisera eu fugir deste degredo! / Deste terrível lupanar imundo, / Onde, hoje, a vida é simplesmente o enredo / De um romance de fel e dor fecundo. // Para que viver mais, quem sobre os ombros, / A cruz da vida tem pesado tanto, / E trá-la a tropeçar por entre escombros? // Disseram que eu morrera. No entretanto, / Como um fantasma vil causando assombros / Ainda arrasto o cadáver por enquanto.” Ora, em que acreditar, no ceticismo quase cínico deste poema ou em toda a derramada oratória espírita? Mais, ainda, no poema “Meu Aniversário”, o poeta lamenta “Mais um ano de dor, mais uma folha lida / No romance real e vil de minha vida.” A isso se contrapõe uma lírica amorosa romântica que ora se realiza com toques eróticos (“Idílio” e “Cuidado”, por exemplo) ora denota frustração, mas sem nenhuma tendência suicida, como no belo “Encontro”, que narra um des/encontro na idade madura, e que, pelo seu equilíbrio, merece ser destacado entre composições que beiram a pieguice.


Parnasiano, místico, romântico, epígono de Bilac, Quental e Augusto dos Anjos, embora isso tudo seja contraditório, Frontões mostra-nos um autor que tem pressa de viver e de mostrar sua produção. Assim, completa sua obra com poemas de cunho social-romântico (“Preto-Velho” e “Itatiaia”), poemas de inspiração parnaso-regionalista (“O Amazonas”, “Canção do Amazônida”, “Boiúna” e “A Pororoca”) e os longos poemas narrativos, já publicados anteriormente, “Satan”, “Caim” e “Cristo do Corcovado”. Como curiosidade, a duas fábulas interessantes, “A Aranha” e “O Grilo”, vêm juntar-se ao que hoje classificaríamos como poesia de autoajuda: “Canção da Dor”, “A Caridade”, “Conselho”, “Filosofando” e o execrável “Parêmias”. Bobagens, filosofices. 


Seria inútil, até porque não é isso o que se espera da poesia, tentar entender a personalidade de Cabrinha a partir dos poemas de Frontões. Mas sua autocomiseração alia-se a uma consciente marginalização, uma autoexclusão do mundo que o cerca, desde a dedicatória, no fundo bem-humorada: “Aos que me repudiam; aos que me odeiam; aos meus inimigos, esses que me ensinaram a perdoar e esquecer ofensas: esta página incolor.” Não é muito provável que Cabrinha conhecesse aquele samba de Noel, gravado em 1933 por Mário Reis: “O mundo me condena / E ninguém tem pena / Falando sempre mal do meu nome (...)” A aura marginal do poeta de Vila Isabel decorria do enfrentamento ao seu meio social. E quanto a Cabrinha, qual a motivação de sua arenga com o mundo? Não seria isso apenas um sintoma de seu romantismo? 


E aqui me refiro ao romantismo enquanto vertigem, e a esta enquanto sensação de ter o mundo girando a nossa volta, ou, inversamente, de que giramos descontroladamente no centro do mundo. A vertigem é a recusa às regras, aos modelos, às normas − é o grito pela liberdade de criação. A vertigem não comporta a arte vestida de linho branco sob a brisa de uma tarde azul de domingo. Não, a vertigem é o caos, a anarquia, a aventura, o desequilíbrio, a lama, a podridão, a escuridão. A vertigem é o não.


Mago, profeta, predestinado, o gênio romântico sob a vertigem tem êxtases místicos, que lhe descortinam o suprarreal e o infinito. A beleza torna-se relativa e seus ingredientes passam a ser antagônicos. As inquietações populares, ele as busca enquanto elas ainda adormecem no seio do povo. O romântico é um revolucionário. Sua pátria é o mundo. E ele parte em busca de outros mundos, procurando a essência, o primitivo, o primordial.


Mas esses dois parágrafos aí em cima coadunam-se mais com o gênio romântico de um Antonin Artaud ou de um Glauber Rocha do que com o nosso estimado Hemetério Cabrinha, que não conseguiu romper a carapaça parnasiana, e, longe de ser moderno, não foi autenticamente romântico. Para usar uma imagem arquitetônica, tão ao seu gosto, Cabrinha foi ponte, foi passagem. Sua importância histórica é bem maior que a discussão sobre a in/sinceridade de seu autodilaceramento. Seus bons poemas ficarão como candeias na noite tenebrosa de uma literatura que procura se afirmar para além do convencional, além do óbvio. Cabrinha retornou ao nosso convívio, e é ele mesmo. E isso é muito bom.

(Publicado no segundo semestre de 1997, no Amazonas em tempo.)